quarta-feira, 12 de julho de 2017

CAFÉ COMERCIAL


   ... ensaladilla rusa, cerveza...
   — ...vale, gracias...
Enquanto sorvi o primeiro gole de caña, reparei naqueles caixotes cheios de livros margeando a parte baixa das paredes revestidas de espelhos até o teto. Que brega... cursi, como se diz aqui. Estranhei também a pouca frequência naquele horário.

   O que havia me incomodado não fora exatamente os livros, complemento melhor não podia ter, mas a feiura de sua disposição naquele espaço tão charmoso feria minha lembrança do Café Comercial, que sempre exalara a alegria boêmia dos encontros regados a unas copas, risos, não a paz das bibliotecas. Um ícone cultural que visitei pela primeira vez há um século após sua inauguração em 1887. Os habitués de então não estavam ali exatamente para ler, mas para compartilhar leituras já feitas, saraus, um local de troca de impressões, experiências, vivências, celebrações, brindes à vida...; e a isso eu me dediquei por um bom tempo.
   A nostalgia voltara como faca a me rasgar ao meio. Um quê de sadismo a potencializar ao máximo a dor do efêmero, parte que em mim se recusa a morrer. Fiz questão de saborear o mesmo prato típico, quem sabe para instigar o paladar a materializar com precisão as lembranças que me fizeram cativa por quase trinta anos.

   Através das imensas e antigas janelas de vidro, meus pensamentos viajaram em reminiscências, resgatando o movimento das calles, ao redor da Glorieta de Bilbao, nas frias madrugadas de inverno, tempo em que morei em Malasaña. Depois meus olhos vagaram observando cada detalhe do salão. Subi devagar os degraus, um tanto mais gastos pelo uso, da escadaria de acesso ao baño. Alisei a pilastra e o tampo de mármore da mesa.  Observei os lustres, o balcão... Tudo permanecia igual, até a porta giratória da entrada era a mesma. E foi por ela que o vi entrar pela primeira vez...

    Juan não chamara minha atenção apenas pelo porte magro e alto, amendoados olhos mouros penetrantes, pela ondulada, farta e rebelde cabeleira negra. Fora repentino o indefinível que nos uniu naquele ‘à primeira vista’. Definitivo naquilo que qualquer ‘para sempre’ pudesse durar. Inquietante. Ele era uma versão de mim, ao mesmo tempo máscula e inocentemente infantil.
 
    Lembrei-me das animadas e lotadas tertulias literárias que sempre atraíram famosos periodistas, escritores e poetas, gente que fazia o agito cultural da cidade. Juan viera àquela noite para recitar poemas de Antonio Machado, em homenagem ao assíduo poeta, frequentador dos primórdios do Café:
“Fe empirista. Ni somos ni seremos.
Todo nuestro vivir es emprestado.
Nada trajimos; nada llevaremos.

Minha primeira impressão sobre Juan mostrou que eu não me enganara. Reconheci nele uma alma solitária se testando o tempo todo fingir gostar de companhia. Ainda guardo o que escrevi sobre nosso surpreendente encontro naquela noite...

Dezembro de 1987
Assim que larguei meu copo sobre a mesa, Juan pegou minhas mãos e começou a admirá-las de uma maneira que ninguém havia feito antes. “Hace quinze dias que tu no echas un polvo”, falou de súbito. Eu sei que essa gíria significa ‘transar’, mas quis saber por que ele afirmou aquilo com tanta certeza. Ele respondeu, sem expressar reação de aprovação ou reprovação: “Você lixou suas unhas, mas não tirou o esmalte”. Enrubesci de vergonha, mas disfarcei o embaraço com a pronta resposta: “Fiquei sem acetona”.
   Que tipo de homem botaria esse nível de reparo em uma mulher? Qualquer pessoa pensaria ser apenas um sinal de desleixo deixar o esmalte cobrindo apenas três-quartos das unhas. Só quem sabia muito de mim seria capaz de sacar que eu me enfeitava apenas quando tinha alguém na mira. Ai, que vergonha... Exatamente ele, o imprevisto que me interessou mais que tudo, e eu naquele descuido... Como conseguiu acertar com precisão, apenas vendo a parte superior em branco das unhas, os dias que me separaram da última trepada?!

   Foi assim o nosso início. Eu dei um passo, ele me jogou o laço. Virei sua eterna presa, da mesa à cama. Por um bom tempo não pintei mais minhas unhas; ele detestava... [para minha total e grata surpresa!].

   Foram tantos os nossos encontros, do Café a lugares tão distintos de Madrid, que eu não pude escapar de seu fantasma todas as vezes em que retornei à cidade. Mas como tudo em minha vida, veio o fim e a certeza de que ele era apenas mais um. Nômade, beduíno, dervixe solitário em multidões. Não queria compromissos. Nunca me confidenciou detalhes sobre sua vida. Nem eu quis saber, apenas me entreguei de cabeça e vivi o presente daquela paixão. Veio a despedida, e nenhum contato mais.

     Juan sempre fez questão de deixar claro que viajava sem bagagem, que se bastava a si mesmo e que jamais caia em armadilhas que o tirassem de sua maior companhia: ele mesmo. Prefiro pensar que sobreviveu, embora só eu saiba a dor e o tempo que gastei à sua procura sem nenhum sucesso, em períodos distintos. Mesmo depois, pela internet e pelas redes sociais, nenhum dos muitos homônimos pesquisados fez jus ao que eu busquei.  Juan, Juan... por onde andarás?
   - La cuenta, por favor...

   Em minha derradeira visita ao Café Comercial fechei um ciclo junto com o cerrar de suas portas, triste fim de mais um dos cem antigos cafés da cidade, palco de tantos encontros e de la movida madrileña, que não pôde suportar a crise econômica que atingira boa parte da Europa. Em minha última tentativa, ninguém ali ouvira falar de Juan Hadi Vazquez. 
   Mas sei que você não morreu, Juan... sinto aqui dentro que não.

Virginia Finzetto
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in La Barca, revista literária Scenarium Plural,  pp. 34-40, junho de 2016



sábado, 8 de julho de 2017

SINTAGMA

assim que o nó da embarcação se desfez
vi teu continente se afastar lentamente
e nas travessias e paragens pelo mar afora
decorei paisagens de espalhadas ilhas do egeu

aquelas certezas se foram, sumiram do meu agora
arrefecida em recifes, atada em atóis,
sob a luz de tantos sóis
mirei nossas sombras trêmulas em águas revoltas
como fantasmas de piratas saqueando minha paz
a cada tentativa de me aportar em ti

e em minhas mãos frementes, tua carta revela
à cartografia de minha circum-navegação
filosofias de teu porto inseguro — segredos apenas
tão nossos, por ora tão distantes
não há mais regresso a palas athena

virginia finzetto
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in Plural North & South, p. 91.

DIÁLOGO

no tecer do diálogo perfeito,
o ton sur ton
o dégradé
o composé
o tecido e a linha
o bordado e a laçada
os pontos diferentes
tudo ajustado
combinando lado a lado
só o avesso
esconde seu defeito,
pontas soltas
do mal arrematado

virginia finzetto

segunda-feira, 3 de julho de 2017

GRANADA

desde Roma
nunca o amor floresceu
como na romã
em Al Andaluz
e as granadas encarnadas
que restaram da explosão do velho mundo
espalharam sementes
mesclando nódoa ao sangue
na rota da nova civilização
aqui e ali e lá e acolá
semeadas em solos promissores
ainda guardam a possibilidade
de fazer nascer o bendito fruto
virginia finzetto

quarta-feira, 28 de junho de 2017

1987

o secreto mais repleto com as boas memórias, eu imprimi em papel colorido e arabescos. mas o viço das cores iniciais, ao longo do tempo, começaram a mostrar os sinais de envelhecimento, por causa do uso constante e da imprudência no manuseio. nas bordas, as mini-dobras agora denunciam que foram lembranças intrusas que insistiram em desvelar, ali, o que seriam somente ilusões. visíveis, já, são os sinais do gasto. o medo e a desesperança são como pingos de azul de tornassol, que se espalharam revelando as partes codificadas do mapa do sonho. eu ainda me agarro fielmente às sobras da estamparia alegre que resistem. e, entre uma ilha e outra ainda não invadida pela terrível frieza desse mundo líquido, procuro um cantinho onde me abrigar. 

 virginia finzetto

quarta-feira, 7 de junho de 2017

HIPOTETICAMENTE

homem que é homem
é humorado histérico
é hospício histórico 
é holofote histriônico
   happy hour

homem que é homem
é hermeneuta holográfico
é haxixe hipnótico
é hierofante herético
   hacker

homem que é homem
é homo
é hétero
é humano
   hardware

homem que é homem
é com h
  de hemorragia menstrual
  de hímen complacente
  de harém
      haicai 

homem que é homem
é herói e heroína
é Hermes e Helena 
   habitat de alma fêmea

virginia finzetto

terça-feira, 30 de maio de 2017

INTRANSITIVOS


a chuva é para são pedro como a lágrima é para a menina dos olhos. tempo em que trovões são como lamentos, ambos a pedir atenção e silêncio para acolher o justo sentido que jaz intransitivo. não está acostumado a ouvir recados aquele que se apega a qualquer antes, alheio ao efêmero de todo instante sempre aguardando um mesmo depois. 


virginia finzetto

quinta-feira, 25 de maio de 2017

MERENCÓRIA

em tardes mornas, lembro de mim na calçada ouvindo os barulhinhos da noite chegando e a contumaz merencória que descia para me abraçar. eu era criança, e tudo o que sentia era uma profunda e inexplicável saudade de casa. mas eu nunca havia estado em outra casa... e esse aperto solitário durava o infinito do trajeto dos ponteiros do relógio a percorrer exatos trinta minutos, que coincidia com a ave-maria que minha avó recitava religiosamente todos os dias. eu entrava para ouvi-la murmurar e, só assim, no recato da prece de seu colo, toda minha ausência podia ser dissolvida. 

virginia finzetto

terça-feira, 16 de maio de 2017

GÊNESIS

quero ver você solto no espaço, viajando infinitamente pelo vácuo escuro entre as constelações, sem ter com quem conversar. quero ver você acordar e achar que teria sido melhor contribuir, sem reclamar, atendendo aos apelos daquele pastoreco, aquele que arranca tesouros dos fiéis sem jamais ter se questionado sobre quem de verdade habita seu próprio coração. quero ver você suportar o vazio de sua zona de desconforto puxando pela memória qualquer canção do Roberto. quero ver seu mundo cair e não restar data alguma para comemorar. porque tudo é absolutamente o insuportável nada. e o nada precisa ser preenchido com doses absolutas de qualquer tudo

virginia finzetto

quinta-feira, 27 de abril de 2017

DAS 10, A MENTIRA MAIS VALIOSA DA MINHA VIDA

Era maio de 82, eu tinha uma Brasília amarela. Naquela tarde, eu estacionei em uma vaga na rua, bem em frente a uma casa lotérica, e fui fazer compras. Na volta, resolvi entrar para fazer um joguinho, antes de ir embora. Saí e lembrei que havia me esquecido de comprar frutas e tinha um mercadinho bem perto dali. Então, abri o carro, joguei as sacolas dentro, e nessas de correria, larguei o bilhete e o troco dentro de uma delas. Depois de meia-hora, eu volto cheia de sacolas quando noto que as outras não estavam mais ali. Cacete!... na pressa, eu esquecera também de trancar o carro, pensei. Fiquei muito triste com o roubo, mas entrei no veículo e fui em frente. Já lá em cima, antes de eu virar para entrar na minha rua, vi um sujeito agachado na calçada vasculhando umas sacolas, que, imediatamente, reconheci como sendo minhas. Quase dei um cavalo de pau ao frear e acabei estacionando no meio da rua. Desci ao berros, chamando o cara de todos os palavrões. Nesse mesmo instante, vinha subindo a polícia com a sirene acionada. O cara, sentindo-se ameaçado, conseguiu fugir correndo, como quem sai catando coquinho no chão, largando tudo pra trás. E fiquei muito feliz com a sorte de ter recuperado minhas compras e, quando me viro em direção ao meu carro, vejo a viatura da polícia queimando os quatro pneus na freada bem em cima da minha Brasília. Largo tudo e coloco as mãos na cabeça, ao ver descendo os dois policiais com armas apontadas para mim. O susto foi tão grande que quase desfaleço, porque, se eles tivessem amassado minha caranga, eu teria que arcar com aquele preju sozinha. Aí um deles, de praxe, pediu minha habilitação e os documentos do carro, eu entreguei tudo e, depois de eles constatarem o equívoco, me liberaram. Entro no carro e fico alguns minutos recuperando meus sentidos. Fui embora com o coração ainda disparado de tanta emoção. Uns metros mais adiante, eu vejo a polícia, a mesma que havia me abordado, apontando armas agora para um sujeito, o mesmo que havia me roubado. Ele, com as mãos na cabeça, e uma sacola no chão, ao seu lado. Ahhhhh, pensei, maldito bandido, conseguiu fugir levando uma de minhas compras!Imediatamente parei o carro e fui lá tirar satisfação. Os policiais, reconhecendo a Brasília amarela começaram a discutir entre si, ora apontando a arma para o bandido, ora para mim, porque desconfiaram que EU fosse cúmplice do larápio. Depois de muitas explicações, consegui convencê-los de que EU era a vítima, e que havia parado ali exatamente para recuperar o resto das minhas compras, ou seja, a sacolinha que estava ali bonitinha no chão. Resumo da ópera: das 10 sacolas de compra, NAQUELA estava o bilhete de loteria, ainda com o troco! No dia seguinte saiu o resultado, e eu havia feito a quina sozinha.

Quase enfartei! Demorei muito a me recuperar do susto. Perdi o sono, já não comia mais, tamanha a ansiedade e o temor que tomaram meu corpo e minha alma. Durante um tempão fiquei com o bilhete, olhando toda hora para ele, conferindo os números com o recorte do jornal com o resultado e guardando-o em um lugar seguro. Repetia o ritual quase que diariamente, só pensando no que eu deveria fazer. O prêmio era muito alto, iria mudar radicalmente minha vida. E eu me perguntava se estava preparada para isso. Até que um dia, decidi ir resgatar o prêmio, assim de supetão, como quem não quer nada. Estacionei minha Brasília amarela bem em frente à Caixa Econômica Federal, desci firme e resoluta, com a bolsa à tiracolo, quando, ao olhar para a esquerda, vejo um sujeito se aproximando a passos largos em minha direção. Mas, assim que eu o reconheci como sendo o mesmo ladrão, aquele que havia roubado minhas compras do carro há meses, ele deu um puxão na minha bolsa e fugiu com ela em disparada. Nessa hora, não havia nenhum policial por perto, não havia nenhuma viatura em alta velocidade e não houve nenhum déjà vu. Só o meu coração colapsou e eu nunca mais me recuperei desse episódio.  Moral real deste conto de ficção: um raio não cai no mesmo lugar, mas pode infernizar a vida de uma mesma pessoa por várias encarnações.

virginia finzetto

quinta-feira, 20 de abril de 2017

XADREZ

não me atreveria a esbarrar em um ângulo sequer da inteligência que rege meus órgãos. não haveria apologia de uma causa boa que reparasse tal imprudência nem instância que me pudesse salvar de um grande desastre. risco um fósforo em total rebeldia para as coisas que são a mim permitidas. o que significa dizer que liberdade é palavra oca para os que dominam a técnica do xadrez. enquanto me estapeio com o bispo e domo o cavalo, ou jogo as tranças da torre esperando o rei trair a dama, os peões se arriscam em pequenos passos e não temem o sacrifício a que se destinam. e só preencho um quadrado com um número certo não antes nem depois de preencher um outro. fora isso, tudo é palpite. se nisso se acerta, chama-se tal feito de sorte e segue-se cego esperando um novo milagre. mas poderia se acertar muito além com o conhecimento da mais pura técnica. 


virginia finzetto


segunda-feira, 17 de abril de 2017

A LENDA DO OVO DA PÁSCOA


era uma vez um ponto imaginário que veio do espaço e caiu numa ribanceira. seu tamanho era tão impesável e impensável, que ele permaneceu assim estático em sua solitude, sem ser notado, por longos e incontáveis períodos. no entanto, por intensa ação de uma força inominável, esse ponto começou a despencar. veio a chuva, veio o sol, e ele foi rolando, se envolvendo em camadas e mais camadas de matérias. e veio a chuva e veio o sol, e veio a chuva, e veio o sol... ele se sentia muito protegido dentro de um oco de total esquecimento. e assim ele foi aumentando de tamanho. rolando, rolando, crescendo cada vez mais... até que um dia, ele não soube mais se distinguir de dentro de tanto barro endurecido. muitos outros pontos vieram para esse mesmo lugar, a princípio com total consciência de sua origem e de seu paradeiro, mas, com o tempo, sob a ação de tanta lama envolvida, acabaram virando ovos de páscoa. embora talvez você ache que não sabe, há dentro de todos eles uma surpresa. :D    feliz páscoa!

virginia finzetto

domingo, 2 de abril de 2017

CLANDESTINA

não basta ser discreta
quero ser quieta
não basta ser quieta
quero ser clandestina
não basta ser clandestina
quero ser invisível
não basta ser invisível
quero ser energia
não basta ser energia
quero ser oscilação
não basta ser oscilação
quero... quero... quero...
isso, quero esquecer
o que sou


virginia finzetto

quinta-feira, 23 de março de 2017

Pré-venda do livro VI E/OU VI que o vento é aqui!

VI E/OU VI que o vento é aqui 


São apenas 30 exemplares na edição de lançamento. Garanta já o seu no link abaixo:

https://scenariumlivrosartesanais.wordpress.com/2017/03/11/029/

Pela Scenarium Plural Livros Artesanais


Lançamento dia 25 de março de 2017, a partir das 15 h

EKOA Café - Rua Fradique Coutinho, 914
 
Vila Madalena - São Paulo


terça-feira, 7 de março de 2017

LANÇAMENTO DO LIVRO

VI E/OU VI que o vento é aqui 

Pela Scenarium Plural Livros Artesanais

Dia 25 de março de 2017, a partir das 15 h

EKOA Café - Rua Fradique Coutinho, 914
 
Vila Madalena - São Paulo


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

ANTES DE ONTEM, ANTES DE AMANHÃ, ANTES DE HOJE...

ANTES DE MIM... DEPOIS!

mas hoje
é a véspera
do dia 2
do mês que veio
do ano há 10
que você
se foi

eaquitudosegueeeuunoaspalavrasparaqueelasseconsolemumasàsoutrasenãochoremdesaudadedeumtempoemqueachavámosquenósenvelheceríamosjuntos

e antes de partir
você me disse:
pule a quarta,
espalhe as cinzas
e de alegria grite,
porque é fevereiro
de carnaval

virginia finzetto






terça-feira, 24 de janeiro de 2017

TAPAS LITERÁRIOS

das sete artes e das letras
com licença, poética é gastronomia!
tão atenta às minúcias da linguagem
a produzir delícias em antologia 
gêneros e aromas exclusivos
em vasto repertório de versificação
versos de minuto a poemas da hora
criados em oficinas de alquimia 
há menus fartos e variados
produzidos pelo poeta mestre-cuca
ladeados de boa prosa, sátiras picantes
trocadilhos salteados, salpicados de métrica
a exprimir o que há dentro de nós
como espremer a essência da noz 
estrofes de mignon, rimas à pururuca
estrambótico com pitada romântica
papo de anjo, gulodice
os cabelos de Berenice 
sopa ou ensopado 
ao sugo, al dente, marinado
da pâtisserie à marmelada
tortas redondilhas, rondó de goiabada
quadra, dístico, terceto 
em salada, in brodo, ao pesto
hashis em haicais, barquetes de elegias 
ode em neve, espetinho épicos
soneto de legumes, éclogas com lichias
em declamados pratos líricos
rocambole de frases, epopeia de sabores 
que brotam da imaginação 
tudo no capricho da linguagem... 

iguarias autorais assinadas pelo chefe!

virginia finzetto