sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

NINO

dia sim dia não, às vezes todos da semana, o menino dava um jeito de convencer a vizinha a lhe deixar usar a piscina. não queria brincar, não queria nadar, apenas salvar os insetos. moscas, abelhas, besouros subiam no pedaço pequeno de tábua que ele guardava no bolso do shorts. alguns conseguiam sobreviver, alçando voo da plataforma de madeira, mas boa parte deles, pelo tempo ali expostos, acabava se afogando, por isso cada segundo era precioso na vida dos bichinhos salvos pelo Nino. os que morriam, eram depositados na caixinha de fósforos vazia, e depois enterrados no jardim. quando havia uma grande quantidade viva deles, ele avisava a dona Máxima que estava faltando cloro na piscina, e assim seu papel de salva-vidas aumentava em significância, protegendo também a saúde dos humanos.
 

virginia finzetto

Em memória do meu irmão Alexandre, que partiu muito cedo e que no dia 5 de fevereiro completaria 67 anos. Saudades!

domingo, 25 de janeiro de 2026

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Meu SCRIPTORIUM ficava na Rua Cunha Gago

Como a Esme, protagonista do livro que acabo de ler - Dicionário das palavras perdidas -, compartilho situações semelhantes que vivi lá em 1978, quando entrei para o Empório, estúdio editorial da Sonia Robatto, pioneiro na produção de fascículos para a editora Abril. O Dicionário de Cozinha foi o projeto que me trouxe essas recordações. Palavras como pesquisa, ficha, escaninho fizeram parte do meu dia a dia por muitos anos. O material recebido da Bettina Orrico era manuscrito, enviado na medida em que ela testava cada processo culinário em sua cozinha experimental. Aí eu datilografava cada palavra e seu significado em laudas separadas, repassava para a edição da Arlete Alonso e do Caloca Fernandes e uma cópia da escolhido para a ilustração. Depois vinha minha revisão e cada lauda era classificada alfabeticamente nos escaninhos, antes de irem para a composição no Seitiro, que funcionava na casa em frente. Na arte Roberto, Zezinho e Janjão trabalhavam no past-up, intercalando os verbetes com as vinhetas da Kika, produzindo as pranchas que seriam enviadas ao fotolito. Ao final de tudo impresso, escrevi cada verbete em uma ficha e classifiquei para fazer os fascículos dos índices da obra, alfabético e remissivo. Um processo minucioso, manual e longo comparado à rapidez com que a informatização nos permite produzir tudo isso nos dias de hoje. Não via o tempo passar com essa equipe divertida na casa iluminada de Pinheiros, quando ainda era um bairro horizontal e tranquilo. Por muitos anos compartilhei esse endereço com tanta gente legal e exerci meu ofício com tanto prazer, que nem posso chamar de trabalho. Um passado que adoro lembrar.

virginia finzetto

Indico muito a leitura do livro Dicionário das palavras perdida... tem muito mais do que minhas lembranças nessa preciosidade da escritora Pip Williams, com a fabulosa tradução de Lavínia Fávero.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

SOU O ESPELHO DE NOÉ

saio às 6 da manhã com a cachorra para mais um descarrego de xixi e na volta a porta não abre. todos dormem. minha mãe é surda e meu filho tem sono profundo. toco a campainha e nada. aí começo a forçar a porta e percebo que não é a fechadura. o acontecimento se deu por causa de uma em um trilhão de chances de a ponta da língua do trinco, que não estava travada, se encaixar no fecho quando eu bati a porta ao sair... pensa que eu fiquei triste? nada... quem passa por uma experiência dessas e tem o insight de que descende de Noé? Foi ele mesmo que trancou a arca dele por fora, percebe? A diferença é que Noé e os animais ficaram para dentro e eu fiquei com a Freija pra fora... [final da história, NESTE caso, alguém que não trancou teve que abrir a porta pelo lado de dentro..

(tá, confesso, eu inventei tudo... lá em 2016)

virginia finzetto

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

TOCO DE BEQUE

alegram-me as palavras que abrigam delicadezas nos recantos de suas serifas, como aquele toco de beque mocosado no muro da viela, tipo pensando no resgate de uma lembrança quando o sombrio atingir o futuro. entre todas as coisas estão ocultas nossa própria salvação.

virginia finzetto

domingo, 2 de novembro de 2025

FINADOS

a observadora discreta, constante na espreita,
a que conhece todos os roteiros,
dos bastidores marca o ponto
e sopra arrepios entre os atos.
 
aquela que nunca se casa,
porque rouba sempre o último suspiro.
ela, que nunca terá certidão de óbito.
essa tal de morte é sempre muito viva!

virginia finzetto



[dia 2 de novembro comemoramos o dia dos que já se foram, não importa a data, aquele momento que ninguém escapa]

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

DÁ UM TEMPO

mensurável 
aqui
e acolá
comprar para esticá-lo
ou encurtá-lo
repor isso
ou aquilo
suprimir
àqueloutros
se quiser viver mais
ou morrer mais cedo,
no virtual ou na real,
ser um replicante
custa tempo

virginia finzetto