sexta-feira, 18 de outubro de 2019

CONSULTA

quando tento entender minhas doenças autoimunes, penso nelas como seres. vejo direitinho as carinhas de criança peralta. coloquei as duas sentadinhas na minha frente para bater um papo, assim, sem neura. não quis passar pito, dar bronca, apenas as chamei para tentarmos, juntas, investigar o início de tudo. senti, pela expressão de interrogação, que elas pouco sabem sobre o assunto. são apenas mercurianas entregando o recado. agitadas, querem logo escapulir para brincar. não fixam muita atenção em mim. seus olhinhos ligeiros sondam o entorno como que procurando os lugares para novos estragos. eu daqui, inclino a cabeça, sorrio dando tchauzinho. deixa elas... 

virginia finzetto

terça-feira, 15 de outubro de 2019

CATAPULTA

- vai se catá!, debochava a pulta, 
até ser defenestrada!

virginia finzetto

OCO

a tendência de ocupar os espaços vazios nos leva a preencher imediatamente o que descartamos como sem importância, até que não haja vazios. no oco, no vão, no vácuo reside um mínimo de chance de se cultivar a dúvida, de se espantar com o maravilhoso que é a presença ausente de qualquer importância e da insustentável falta dela.

virginia finzetto

sábado, 12 de outubro de 2019

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

terça-feira, 1 de outubro de 2019

A INEXISTÊNCIA DE EVA

Meu filho sempre foi curioso, inteligente e esperto, e queria saber o porquê de tudo. Mesmo assim, os professores nos chamaram um dia e sugeriram que ele passasse por uma avaliação de um terapeuta, para identificar a causa de sua dispersão. Segundo o diagnóstico, os exames clínicos apontaram um déficit de atenção. Havia uma defasagem entre o que ele ouvia e o que o cérebro dele processava. Provavelmente a causa de sua desobediência às ordens dadas e à tradicional disciplina exigida para adquirir o aprendizado regular. A partir daí, seguindo as orientações médicas, ele começou a frequentar sessões de ludo terapia e fonoaudiologia.
Certo dia, enquanto folheávamos algumas revistas disponíveis na recepção do consultório, ele se interessou pela capa de uma delas que trazia a imagem reconstruída em computador do crânio feminino encontrado pelos arqueólogos, com a chamada em destaque: “LUZIA”, A PRIMEIRA BRASILEIRA.
-- Olha, mamãe!
-- É, que legal... A Luzia, a primeira mulher! – exclamei.
-- Mas a primeira mulher não é a Eva?
A sala repleta de gente. Todos riram dessa tirada genial, que me encheu de orgulho do meu filho perspicaz. Então, expliquei a ele que aquele fóssil era o da primeira mulher encontrada no Brasil e que existiam muitos, até mais antigos, descobertos em outras partes do mundo.
Como fazê-lo distinguir que uma coisa eram os achados arqueológicos e outra era a abstração necessária para compreender a complexa e metafísica simbologia da existência da primeira mulher bíblica, se eu mesma tinha tantas dúvidas...
Quando se perde a capacidade de acreditar em algo que não deixa pistas materiais que satisfaçam aos cinco sentidos físicos, as pessoas ou duvidam dessa existência ou cultivam a fé, que é crer sem a necessidade de provas.
Muitos anos se passaram, mas meu filho continua o mesmo cético no que parecia ser apenas ingenuidade infantil: “se foi possível descobrir a Luzia, onde estariam os ossos da Eva?”.
Supondo que por um ângulo da ciência nós existimos a partir da evolução do macaco, quer crença maior do que um elo perdido que até agora ninguém encontrou? Ou é melhor acreditar que fomos criados a partir do pó das estrelas?
Seja o que for, há uma Eva em nossas vidas, encontrem ou não seus restos mortais.
Pode crer!
Virginia Finzetto 

(crônica para o blog da Scenarium Plural, janeiro de 2017)