sexta-feira, 25 de setembro de 2020

CRÔNICA DE UMA VAGINA POrrETA

Desde que fora demitida de seu último emprego fixo, ela estava convencida de que aquela era a hora de parar de trabalhar para os outros. Decidiu abrir sua própria empresa. Sabia que não teria os mesmos ganhos que antes como editora, mas ficou feliz com a possibilidade de uma nova rotina, poder conciliar melhor seus horários.

Nos intervalos entre um trabalho e outro, ela voltou a escrever poemas e, com o tempo, passou a publicar em grupos e páginas pela internet essa arte que fazia às escondidas.

Quem imaginaria em um passado nem tão remoto que as pessoas se conectariam globalmente por redes virtuais e, que, estas, também, mostrariam o que há, do que sempre houve, de esquizofrenia subterrânea da civilização moderna.

Saíram dos armários para as passarelas virtuais o que de melhor e de pior cada um guardou em seu próprio interior durante as décadas de 90, 80, 70... até sei lá qual, quando ainda não existia essa forma de se divulgar vaidades e importâncias pessoais com tanta facilidade.

Para os preconceitos mais evidentes, não puníveis no passado, agora havia leis, mas não uma real transformação de valores humanos que justificasse todo o veneno que circulava na internet, evidenciando o quanto ainda éramos perversos, machistas, homofóbicos, racistas e violentos.

O viés poético da prosa, que a princípio pensava cultivar sem compromisso, era o que mais lhe agradava, pois, de fato, sentia que algo de si queria se manifestar, as palavras ganhavam força própria, fluíam, dando recados que até então ela não percebia.

Até a hora que topou com seus versos plagiados e o impostor dizendo que eles não tinham autoria depois que ganhavam as redes.

Não gostou nem um pouco da falsa modéstia do invejoso ladrão, embora intuísse que a poesia mesmo não pertence a este mundo, pois é ela que, como uma grande vagina, se abre para engolir para sempre quem a gesta... é a poesia que abriga o poeta, a poeta em seu útero, até a hora que se faz pronta para ganhar a luz... é a poesia que faz, após nascer de parto natural, descansar em banho maria em sua placenta de ideias aquele ou aquela que a pariu, até resolver voltar quando quer.

E foi nesse aconchego de reflexões que ela entendeu sua verdadeira vaidade de assumir ser ‘mãe terrena de poesia’ e, como tal, aceitar que sua cria nasce livre desde a concepção, apenas para ser o que é, existir, e não para lhe pertencer.

A poesia é!, mas a poeta, como toda mãe que zela pela cria que ama, processou o plagiador sem caráter, que sequer pai adotivo merecia ser.

virginia finzetto

terça-feira, 8 de setembro de 2020

DOS TÍTULOS

 "A rebelião das vírgulas" - título do meu próximo livro.
Cada um que o interprete como quiser... 
 
só não diga que não avisei!

virginia finzetto

AINDA NA PANDEMIA

a doença que revela amores: 
os próximos, 
os distantes, 
os terminais 
e os que só ficam 
na lembrança.

virginia finzetto

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

PRESENTE

me peguei olhando detalhes 
como se eu voltasse a ser 
a aluna disciplinada e atenta à vida. 
será que assim a morte me esquece?

virginia finzetto