terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Meu SCRIPTORIUM ficava na Rua Cunha Gago

Como a Esme, protagonista do livro que acabo de ler - Dicionário das palavras perdidas -, compartilho situações semelhantes que vivi lá em 1978, quando entrei para o Empório, estúdio editorial da Sonia Robatto, pioneiro na produção de fascículos para a editora Abril. O Dicionário de Cozinha foi o projeto que me trouxe essas recordações. Palavras como pesquisa, ficha, escaninho fizeram parte do meu dia a dia por muitos anos. O material recebido da Bettina Orrico era manuscrito, enviado na medida em que ela testava cada processo culinário em sua cozinha experimental. Aí eu datilografava cada palavra e seu significado em laudas separadas, repassava para a edição da Arlete Alonso e do Caloca Fernandes e uma cópia da escolhido para a ilustração. Depois vinha minha revisão e cada lauda era classificada alfabeticamente nos escaninhos, antes de irem para a composição no Seitiro, que funcionava na casa em frente. Na arte Roberto, Zezinho e Janjão trabalhavam no past-up, intercalando os verbetes com as vinhetas da Kika, produzindo as pranchas que seriam enviadas ao fotolito. Ao final de tudo impresso, escrevi cada verbete em uma ficha e classifiquei para fazer os fascículos dos índices da obra, alfabético e remissivo. Um processo minucioso, manual e longo comparado à rapidez com que a informatização nos permite produzir tudo isso nos dias de hoje. Não via o tempo passar com essa equipe divertida na casa iluminada de Pinheiros, quando ainda era um bairro horizontal e tranquilo. Por muitos anos compartilhei esse endereço com tanta gente legal e exerci meu ofício com tanto prazer, que nem posso chamar de trabalho. Um passado que adoro lembrar.

virginia finzetto

Indico muito a leitura do livro Dicionário das palavras perdida... tem muito mais do que minhas lembranças nessa preciosidade da escritora Pip Williams, com a fabulosa tradução de Lavínia Fávero.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

SOU O ESPELHO DE NOÉ

saio às 6 da manhã com a cachorra para mais um descarrego de xixi e na volta a porta não abre. todos dormem. minha mãe é surda e meu filho tem sono profundo. toco a campainha e nada. aí começo a forçar a porta e percebo que não é a fechadura. o acontecimento se deu por causa de uma em um trilhão de chances de a ponta da língua do trinco, que não estava travada, se encaixar no fecho quando eu bati a porta ao sair... pensa que eu fiquei triste? nada... quem passa por uma experiência dessas e tem o insight de que descende de Noé? Foi ele mesmo que trancou a arca dele por fora, percebe? A diferença é que Noé e os animais ficaram para dentro e eu fiquei com a Freija pra fora... [final da história, NESTE caso, alguém que não trancou teve que abrir a porta pelo lado de dentro..

(tá, confesso, eu inventei tudo... lá em 2016)

virginia finzetto