quarta-feira, 16 de maio de 2018

ARECIBO E ATACAMA

não estava certa de uma causa para subir no ponto mais alto e isolado do edifício e conseguir se concentrar. pensava que talvez fosse como as antenas, parte de um "seti", conectando-se ao cosmos em busca de novos pulsares da "alma" na aridez de seu deserto. uma ilha no salar e lá estava ela a fustigar reminiscências. lembrou de sua declaração de amor à lhama e seu riso frouxo ao receber uma cusparada como resposta. nem sempre riu quando foi frequentemente assim tratada pelos humanos. agora não fazia nenhuma diferença. de fato, não atraía mais corretivos desse tipo para suas fraquezas. trocou correntes e âncoras por balões de hélio. transmutou rancores em vapores. e sua nau atravessou o espaço ao som dos espasmos internos, no compasso da dança entre fluidos e gases... 

virginia finzetto

quarta-feira, 9 de maio de 2018

MEDITERRÂNEO

às vésperas de seu retorno à Gibraltar, caiu um atípico e intenso temporal no lado marroquino do mediterrâneo. o fato soou como um aviso dos deuses à decisão de Ana em abandonar suas buscas por Juan. da janela do quarto da modesta pensão, ficou imaginando como seria se tivesse que passar pela experiência de viver prisioneira. não bastava ter que se conformar como hóspede de um corpo, uma reclusão forçada seria uma violência contra sua alma que tanto lutara para aprender a ser livre. a noite se aproximava e nenhuma notícia de que o clima adverso poderia se acalmar em breve. todos os ferries estavam suspensos. resignou-se em se espelhar no exemplo daquela água que escorria pela vidraça, moldando de várias formas sua existência entre o céu e a terra, aceitando ser o que era naquele momento. logo se distraiu pensando sobre as coisas fora de uma ordem lógica como era a espanha marroquina e a inglaterra andaluza. acendeu a luz do abajur e voltou a fazer suas anotações sobre a ponte traçada entre os dois destinos, sem adivinhar a surpresa que iria ter no jantar... 

virginia finzetto

segunda-feira, 7 de maio de 2018

MAGREBE

de passagem por Iguelmimene, ela lembrou que o povoado tinha menos de 10 mil habitantes quando o conhecera. no final daquela década, um mundo inóspito revelou valores tão distintos dos seus, que nenhuma descrição de civilizações além do planeta poderia causar tanto impacto quanto o que ela havia experimentado ali. veio-lhe a memória de todos funcionando como um só organismo, cujas células não reivindicavam fama exclusiva para si. os berberes, que sempre se mantiveram em festas para preservar sua cultura frente à dominação dos fundamentalistas, mostravam os sinais da verdadeira resistência. naquela visita, ela e Juan, constantemente sob o olhar complacente dos que não compreendem quão fragmentado foi se tornando o magrebe, destacavam-se como feridas expostas no deserto. talvez eles se preocupassem pela sobrevivência dos que adotaram a individualidade. assim que o jipe deixou para trás as muralhas escaldantes do ksar, Ana tirou da bolsa o mesmo porta-kohl que comprara em Tânger, há 30 anos, e lembrou da última vez em que Juan acariciara seus olhos. chorou... chorou muito sua nostalgia, mas distraiu-se com as tâmaras oferecidas pelo guia. a viagem de retorno seria longa e certos caminhos jamais deixariam de existir... 

virginia finzetto


imagem: wikipedia. fotografia da década de 1930 mostrando o exército francês na entrada do Ksar Goulmima, Marrocos.

domingo, 6 de maio de 2018

FIRMAMENTO

sem a luz, tudo se mostra outra coisa. a madrepérola verdadeira de abalone, que não reflete seu verniz iridescente à noite, guarda as proporções do que ela estava sentindo ao olhar aquele céu. era de dia que se podia pensar no mar de estrelas fixas a comandar os destinos, mesmo sendo ele apenas aparentemente inexistente. lembrou da primeira vez em que estivera no Saara e não havia deslocamentos de luzes na Via Láctea. a corrida espacial apenas começara e era praticamente impossível uma disputa de satélites orbitando a Terra. agora, ficava em dúvida sobre a realidade dos luminares, o sentido do que verdadeiramente brilhava e o engano das artificialidades a iludir os sentidos. viu a estrela Polar e pensou que a ninguém havia sido negada uma pista. algumas são percebidas de olhos fechados... 

virginia finzetto

sexta-feira, 4 de maio de 2018

DESERTO

desde o dia em que descobrira que seus desejos eram atendidos, ela passou a pensar menos em si. não havia premeditado mérito nessa atitude, não havia pressuposto ganho pessoal, não havia sequer um motivo nobre. apenas uma súbita visão acontecera certa manhã e ela soube que parte importante do mundo precisava estar resolvida, para que ela voltasse a sorrir de verdade. tinha uma pitada egoica à solidariedade que brotara espontaneamente. entre feridos e moscas, milagres de cura eram realizados diariamente. a 500 quilômetros de Rabat, a provisão de recursos não era suficiente para aplacar a epidemia por mais uma semana. a toda hora, lembrava-se de que estar viva dependia mais dessa força do que da vacina que se recusara a tomar. à noite, quando a temperatura caía muitos graus, o acampamento silenciava e ela, envolta em pesadas túnicas de lã, admirava as estrelas. seu camelo amarrado, sua alma voava. 

virginia finzetto

quinta-feira, 3 de maio de 2018

MARGINAIS

a rachadura da calçada era um precipício que separava famílias vizinhas de bichinhos. quando chovia, barquinhos de sujeira passavam ligeiros com os pequenos dos dois lados vibrando de alegria. as mães, às margens, jogavam os bracinhos arrepiados aos céus esbravejando contra as peraltices de suas crias. mas ali não havia mais nada, a não ser aquela veia aberta que às vezes fingia unir em um rio uma grande população.

virginia finzetto

quinta-feira, 26 de abril de 2018

A REPÚBLICA DE TODOS NÓS

Por onde caminhava, o porte magro e pequeno de Ana não passava despercebido. Sua beleza incomum atraia naturalmente múltiplos olhares e flertes. Sua mãe costumava dizer que seu ondulado cabelo castanho-escuro-avermelhado-longo-espesso, de intenso brilho, era herança de sua bisavó paterna, que Ana só conhecera de um antigo retrato em sépia que ficava na caixa de recordações.
A caixa do tesouro, como ela costumava chamá-la, era uma relíquia que ficava sempre no mesmo lugar, uma gaveta da cômoda da sala da casa de sua avó, a guardiã da família.  Desde pequena, Ana adorava brincar de enfileirar aquelas fotos, decorar os nomes, inventar histórias com as figuras em preto e branco e admirar pequenos detalhes, como o olho que faltava no cachorro empalhado do postal italiano datado do final do século 19.
Para ela havia um propósito em cuidar com carinho de retratos antigos e memórias: “onde estariam meus antepassados, essas pessoas e tudo o que amo, se eu não os guardasse dentro de mim?”.
Nenhum de seus pais possuía seus olhos cor de jabuticaba. Os longos cílios e as grossas sobrancelhas negras brindaram-na com um quê de moura cigana, remota herança em sua ascendência. Quando ria, cativantes covinhas se afundavam em cada lado de sua face sustentando o sorriso de dentes alvos perfeitos. Sua timidez a cobria de mistério e sedução. Não eram poucos os hipnotizados pelos seus encantos.
Mas por que ela nunca acreditara em nada disso? Por que se sentia feia e rejeitada? Em seus 18 anos incompletos, não havia um dia em que não estivesse em depressão, atormentada por obsessões que pareciam chibatadas a torturar sua alma.
Naquele sábado, ela descia a Rua da Consolação, apressada para o ensaio. Antes de atravessá-la, um rapaz, que parara ao seu lado, também aguardando fechar o semáforo, puxou conversa. Perguntou se o teatro de Arena ficava no início ou no final da rua. Resgatada repentinamente de suas lembranças, Ana espontaneamente abriu um sorriso e respondeu que estava indo para lá. O rapaz apresentou-se como Sergio e comentou estar atrasado para encontrar um amigo que o convidara a fazer o teste para substituir um dos atores na peça Doce América, Latino América.
Ana imediatamente se mostrou interessada em ajudá-lo, pois conhecia Antônio Pedro, o diretor do novo grupo que se apresentava ali, depois que prenderam Augusto Boal. Veio-lhe à mente as notícias que circulavam à época em que Boal fora levado pela polícia e torturado na prisão, antes de seu exílio. Por bem, preferiu se calar, pois não queria se expor àquele desconhecido sobre esses assuntos.
Lado a lado, ambos seguiram o trajeto, em curtos diálogos sem relevância.
Porém, ao chegar ao teatro, não havia pessoa alguma esperando por Sergio. Sem mostrar nenhum desagrado, ele disse que ficaria por ali e aproveitaria para vê-la ensaiar, enquanto o amigo não chegasse. Amigo esse que não apareceu.
Ana logo pensou que havia caído na cantada de um desconhecido, mas procurou se dedicar de corpo e alma ao ensaio, sem demonstrar seu interesse. Ao término, foi ao camarim pegar suas coisas e, ao se despedir dele, alegou que precisava se apressar na caminhada até a Avenida São João, onde pegaria o ônibus. Ele sorriu e pediu para acompanhá-la, pois ficaria na Praça da República. Ela até que gostou dessa paquera.
Mas, durante o trajeto, repentinamente Sergio desatou a falar abertamente sobre a luta armada no Brasil, a guerrilha do Araguaia, as células que recrutavam jovens combativas e ousadas “como você”  disse-lhe olhando-a firmemente nos olhos , para atuarem na resistência e coisa e tal.  Demonstrando domínio sobre o assunto, citou Lênin e Trotsky e completou sua fala louvando a Revolução Cubana.
Enquanto ele falava, Ana foi ficando ressabiada. Aquele discurso tinha cara de ter sido planejado, decorado. Não demorou muito para ela perceber a situação em que se metera. Sua intuição dizia para se fazer de alienada.
Então, com meias palavras, ela foi despistando o rapaz com perguntas idiotas, evitando mostrar qualquer conhecimento profundo sobre política. Seus pensamentos eram relâmpagos cruzando sua mente em todas as direções. Desconfiada, concluiu: “Esse homem já está na minha mira e não é de hoje... ele é um agente da polícia e está me investigando”. Gelou!
Embora não estivesse comprometida com nenhuma organização clandestina, Ana era contra o regime militar. Sabia de casos de inocentes úteis e ‘laranjas’ presos por engano. Pressentiu que deveria tomar uma atitude urgente, dar um jeito de se livrar dele sem levantar suspeitas.
Sergio foi apertando o cerco, convidando-a para uma dessas reuniões que ele dizia conhecer. Apesar de sua pronta recusa, ele insistia no assédio.
Alguns passos mais e Ana começou a suar frio, quando viu uma Veraneio C14 cinza estacionada em local proibido, exatamente para onde eles estavam se dirigindo.
“Ai, meu Jesus, por que eu fui brigar com a igreja e não acreditar em você? ... Por favor, senhor meu Deus me ajude...”, orou sentindo suas mãos úmidas de medo.
Ela pensou em seus pais, seus irmãos, sua amiga do grupo de teatro que a vira saindo em companhia de um desconhecido...
“Pronto, é uma armadilha... Eles vão me sequestrar e ninguém vai ficar sabendo o que me aconteceu... Pensa rápido, pensa rápido, pensa rápido Ana...”. 
Quando estavam quase em frente à Praça lotada, como era comum nos finais de semana, Ana fingiu tropeçar e, de propósito, se atirou ao chão. Na queda, ralou o joelho, a mão e o cotovelo, arrancando-lhe um grito verdadeiro de dor. Sérgio tentou acudi-la, mas ela se recusou a levantar. Permaneceu sentada na calçada, gritando cada vez mais alto. Com isso, conseguiu atrair a atenção das pessoas, que foram se agrupando ao seu redor. Fingindo uma dor absurda, ela desatou a chorar, como se tivesse fraturado alguma parte sua.
Quanto mais gente se aproximava, mais Sergio se afastava para a periferia da roda que se formara. Então, fazendo jus à atriz talentosa que era, Ana completou a cena com um ataque de nervos. Aos berros, foi inventando um monte de mentiras: “eu quero o meu pai... ele é da polícia... preciso que ele venha aqui com urgência...”.
As pessoas ali se ofereceriam para levá-la ao pronto-socorro, mas ela queria que fossem até o teatro chamar sua amiga e a diretora da peça infantil na qual participava. Só sairia dali em companhia das duas. Mal terminara de falar isso, ela se arrependeu, pois Sergio poderia suspeitar das outras também. E aí, sim, ela chorou de verdade.
Naquele momento, uma mulher se apresentou como enfermeira e pediu que todos se afastassem, alegando que Ana estava em estado de choque. Disse que ficaria ali com ela, enquanto alguém correria até o teatro para avisar o que acontecera.
Dando graças à providência divina pela aparição daquele anjo, Ana disfarçadamente olhou ao redor.
Sergio já não estava mais ali, nem a viatura C14 lá estacionada.
Logo chegaram a diretora e sua amiga e, aos poucos, todos foram se dispersando.
Aliviada, Ana se levantou, limpou do rosto as últimas lágrimas e suspirou...
Sua República voltara a brilhar naquela tarde ensolarada, desafiando o cinza-escuro da ditadura. A transgressora Praça da República dos Meus Sonhos, do grande poeta maldito Roberto Piva, o poema-oração que ela escolhera para declamar ali em silêncio:

                “A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo
e crianças brincando na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas...”

Por muito tempo Ana se recordaria de cada detalhe desse episódio, sem chegar a uma conclusão sobre o repentino sumiço do rapaz: “Seria ele um rato infiltrado ou um contato de verdade tentando me recrutar?”.
Jamais ficaria sabendo a resposta. Da mesma maneira que veio, Sergio desapareceu sem deixar rastro.

Era verão de 1972.  

Virginia Finzetto