terça-feira, 12 de dezembro de 2017

DOS MEDOS

pior do que o contato com o subterrâneo é ficar alojado nas reentrâncias da parede do precipício. sem poder subir nem descer, acobertado pela covardia, em profundo esquecimento, perde-se o diálogo principal do script. ao final, quando a paralisia das limitações físicas chegam, as asas já não batem por falta de treino. aguarda-se então a chegada da morte vagando-se em distrações. só a misericórdia entende e acolhe o cadastro de futuras tentativas, mas de novo vem o medo, antigo esconderijo de proteção das feras, que acaba se tornando ele mesmo o imbatível bicho-papão. 


virginia finzetto

sábado, 25 de novembro de 2017

O QUE OS OLHOS COMUNS NÃO VEEM

ah, o amor,
essa mina de ouro,
guia sua paixão
a procurar diamante
até em garimpo
abandonado


confia que ali
sob escombros
escondido
vive um tesouro
querendo
ser encontrado

virginia finzetto

O FACE NÃO ME DEIXAR POSTAR

será que fui BLOQUIFREIDIADA? não consigo postar escrevendo direto no meu mural.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

LINGUAGEM

eu tenho um caderno repleto de poemas invisíveis. em cada folha, vejo um lápis hesitante e um verso abortado. códigos dos anjos votivos da boca calada. dizem eles que meu silêncio é o fermento necessário para o florescer das ideias luminosas. sem nenhuma previsão, descrevo saudades antigas, como essa que trago dos Beatles quando mataram Paul McCartney e eu acreditei. depois assassinaram o Lennon de verdade, Imagine! George, arre!, sumiu também. agora, só Ringo Starr. 


virginia finzetto

domingo, 19 de novembro de 2017

APREÇO

apreciar, ato raro. não sinto em nenhum de seus sinônimos a poesia cadenciada que exala desse verbo que rebola bola sensualmente. não se trata de botar reparo, muito menos de manifestar arroubos. na mesma calçada, de mãos dadas, andam juntas paz e serenidade. apreciar é a musa do ócio criativo, seu caso de amor mais antigo. do contrário seria apenas leitura dinâmica, passar de olhos. apreciar é agarrar com as mãos ávidas uma grande foda sem hora marcada, penetrando todos os poros do deleite.


virginia finzetto

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

IN EXTREMIS, IN AETERNUM *

Às vezes me pego esperando por algo que precisa acontecer para que outro acontecimento aconteça. É como se houvesse a necessidade tácita de um antes nos bastidores dos atos. Uma antecâmara de cada cena manipulando-as como marionetes para a plateia sempre adormecida.
Seguir o ritmo de um marcador de tempo, como no compasso de um marca-passo, no número de giros da corda mecânica da caixinha de música, no intervalo de cada clique do interruptor de luz…  Nos instantes em que estamos ausentes, onde estamos?
Seria esse gap proposital para que o ser desperto se dê conta do significado da pura espontaneidade? Esta que é a naturalmente responsável pela condução da vida de toda a criação que não a humanidade.
No momento em que o avião inicia sua decolagem, não resta outra opção além da minha entrega para que vingue o voo. Para o curso planejado não pode haver dúvidas.  Qualquer vacilo, gagueira, espirro pode virar o fracasso do espetáculo.

“— Pode-se continuar morrendo pela eternidade…”

Pode-se continuar vivendo na vacuidade.
Pode-se perpetuar alheio a cada golfada de ar a preencher os pulmões.
Pode-se fingir atenção em cada distração.
Pode-se permanecer disperso em qualquer concentração.
Preso a algum ponto da esfera, percebe-se singularmente esse intervalo feito de números, calendários, metas, morais, regras, crenças convencido de que se pertence a algum diâmetro ou raio em particular.
Viver é um verbo que só pode ter sido inventado por algum prestidigitador, nome difícil até de pronunciar. Morre-se desde que se nasce, perpetuamente.  Só.
virginia finzetto
* Nos últimos momentos da vida, eternamente.
publicado na COLUNA PLURAL (scenariumplural.wordpress.com) em 9/11/2017

domingo, 5 de novembro de 2017

BISCATE

no meu ramo
há negócios
frutíferos

faço cílios
postiços
de papel crepom
para faróis de carro

enfeito a vida
e ganho o pão
com quebra-galhos

virginia finzetto