fez meu ser de refém;
despertei para servi-lo
Como a Esme, protagonista do livro que acabo de ler - Dicionário das palavras perdidas -, compartilho situações semelhantes que vivi lá em 1978, quando entrei para o Empório, estúdio editorial da Sonia Robatto, pioneiro na produção de fascículos para a editora Abril. O Dicionário de Cozinha foi o projeto que me trouxe essas recordações. Palavras como pesquisa, ficha, escaninho fizeram parte do meu dia a dia por muitos anos. O material recebido da Bettina Orrico era manuscrito, enviado na medida em que ela testava cada processo culinário em sua cozinha experimental. Aí eu datilografava cada palavra e seu significado em laudas separadas, repassava para a edição da Arlete Alonso e do Caloca Fernandes e uma cópia da escolhido para a ilustração. Depois vinha minha revisão e cada lauda era classificada alfabeticamente nos escaninhos, antes de irem para a composição no Seitiro, que funcionava na casa em frente. Na arte Roberto, Zezinho e Janjão trabalhavam no past-up, intercalando os verbetes com as vinhetas da Kika, produzindo as pranchas que seriam enviadas ao fotolito. Ao final de tudo impresso, escrevi cada verbete em uma ficha e classifiquei para fazer os fascículos dos índices da obra, alfabético e remissivo. Um processo minucioso, manual e longo comparado à rapidez com que a informatização nos permite produzir tudo isso nos dias de hoje. Não via o tempo passar com essa equipe divertida na casa iluminada de Pinheiros, quando ainda era um bairro horizontal e tranquilo. Por muitos anos compartilhei esse endereço com tanta gente legal e exerci meu ofício com tanto prazer, que nem posso chamar de trabalho. Um passado que adoro lembrar.
virginia finzetto
Indico muito a leitura do livro Dicionário das palavras perdida... tem muito mais do que minhas lembranças nessa preciosidade da escritora Pip Williams, com a fabulosa tradução de Lavínia Fávero.saio às 6 da manhã com a cachorra para mais um descarrego de xixi e na volta a porta não abre. todos dormem. minha mãe é surda e meu filho tem sono profundo. toco a campainha e nada. aí começo a forçar a porta e percebo que não é a fechadura. o acontecimento se deu por causa de uma em um trilhão de chances de a ponta da língua do trinco, que não estava travada, se encaixar no fecho quando eu bati a porta ao sair... pensa que eu fiquei triste? nada... quem passa por uma experiência dessas e tem o insight de que descende de Noé? Foi ele mesmo que trancou a arca dele por fora, percebe? A diferença é que Noé e os animais ficaram para dentro e eu fiquei com a Freija pra fora... [final da história, NESTE caso, alguém que não trancou teve que abrir a porta pelo lado de dentro..
(tá, confesso, eu inventei tudo... lá em 2016)alegram-me as palavras que abrigam delicadezas nos recantos de suas serifas, como aquele toco de beque mocosado no muro da viela, tipo pensando no resgate de uma lembrança quando o sombrio atingir o futuro. entre todas as coisas estão ocultas nossa própria salvação.
virginia finzetto
desde criança sinto prazer em fazer coleções. comecei com a de figurinhas, depois de chaveiros, de pedras, de selos... na adolescência, passei a colecionar amores, evidentemente a maior delas foi a de amor não correspondido. depois veio a melhor fase, a de colecionar viagens, físicas e astrais, que enriqueceram a alma e o espírito que trouxeram este corpo até aqui. hoje coleciono receitas médicas e embalagens de remédios, dos genéricos aos importados. e, se ainda vivo fosse o Orkut, eu criaria uma comunidade para comprar as raras e trocar as repetidas. cada mana veia com sua mania.
virginia finzetto
nostalgia reflete a dor em ondulações,
eu converso com as calçadas, principalmente aquelas cheias de detalhes, de coisas jogadas, de frestas... sempre decifro mensagens no que vejo ali espalhado, como no papel picado faltando números, que deveria ser de um celular, na bituca de cigarro, quase inteira, de algum apressado, na ponta de uma carta de baralho, com o 5 de ouros marcado. e ali no vão entre os pedaços de concreto, bem encaixada, estava ela, tesa, com as perninhas viradas para cima, em seu derradeiro sono para a eternidade, totalmente alheia ao vai e vem da Ladeira Porto Geral. fiz uma prece rápida à barata.
virginia finzetto
Sou frequentadora assídua do Youtube, sigo canais de análise política, músicas, filmes, além de acompanhar o astrologia sistêmica, do Harmitt, que sempre acerta em suas previsões. Acontece que a plataforma oferece na página de abertura um leque de opções outras, algumas interessantes, outras que você nem pediu pra nascerem. Ultimamente, tem aparecido muitos de mantras milagrosos de pedidos ao Universo Poderoso, e semana passada surgiram estes, um ao lado do outro: MANTRA DA SEXUALIDADE FEMININA (poderosíssimo, vai te dar resultados imediatos) e SOM QUE ATRAI MUITO DINHEIRO, APARECERÁ DO NADA ONDE VOCÊ MENOS ESPERAR | TODAS AS CONTAS PAGAS 100%.
compro saleiro de plástico duro, eficaz, pois não enferruja e o sal não gruda. investimento: 2,50. aí gasto mais 79 de produto abrasivo para tirar a etiqueta e mais 15 de adesivo escrito SAL, para colocar na cola que não sai nem a pau.
virginia finzetto